A cena foi rápida, portanto é forçoso que se excluam deste relato os seus mínimos detalhes. Um garoto entra em uma rua, montado em uma bicicleta. Dos cós de sua calça tira uma arma e, ainda em movimento, atira duas vezes. No outro extremo de sua ação, o objeto de sua fúria é outro jovem, um des afeto seu, pelo menos é o que se pensa. Neste momento em que são antagonistas de mais um fato do mundo, a única coisa que podem ter em comum é a sua juventude, ambos não devem ter mais que vinte anos. Quem se vê diante da morte, instintivamente não vê outra saída senão fugir e não se pode dizer que o segundo rapaz não tenha tentado, mas os dois tiros dados pelo jovem da bicicleta, atingiram-lhe no abdome e a coxa direita. Mesmo assim, e desesperadamente, ele corre, quem sabe em reminiscência de carreira dada na infância. É em vão. Cambaleia e cai em frente ao portão de uma vila próxima que, aliás, está fechado. Permanece ali, impotente, incapaz de defender a si proprio. Dizem que em tais momentos, como uma lâmpada prestes a apagar, aceleram-se as funções vitais. É de se imaginar que sua carne agônica se mantivesse alerta, avaliando possibilidades inexistente. Em que poderia estar pensando o rapaz, assim, tão próximo da morte? No resto de dor que deveria estar sentindo antes que se desligassem seus sentidos? Na desagradável surpresa do momento? Na débil chance de sobreviver à tragédia pessoal? No medo de quem simplesmente sabe que vai morrer? O rapaz da bicicleta se aproximou, viu o outro agonizando, se contorcendo em dor. Efetuou mais quatro disparos, todos na cabeça. Deus fez o homem no sexto dia e não há quem, em seu íntimo, não se espante ao ver tanta indiferença com o labor divino. O rapaz que se transformou em assassino olhou ao redor, viu que ninguém esboçou reação. Naturalmente é difícil encontrar quem se indisponha com alguém que notoriamente tenha assassinado uma pessoa e se este que tem as mãos manchadas de sangue ainda tiver nelas a arma do assassínio, é até prudente que não lhe sejam negados certos caprichos como o de deixar o local do crime. E assim, livre de impedimentos, o rapaz da bicicleta só poderia ter fugido. Eram nove horas da noite de uma segunda-feira.


Quando a mãe arranca de suas próprias carnes uma criança, se supõe que ela, a mãe, queira daquela que adentra no mundo, por seu intermédio, o melhor, haja vista a relação de intimidade que possuem: uma fruto das entranhas da outra. Existem casos em que essa relação não é possível, pois é inegável que existem fêmeas que não nasceram para a maternidade. Felizmente esses casos são tratados genericamente como desvios da regra. A maior parte das fêmeas abraça seus filhotes e suas causas ou assim imagina proceder. O rapaz que há pouco fora assassinado, decorridos então cerca de vinte minutos entre o ocorrido e a chegada de sua mãe, provava assim estar inserido na regra. Dizem ser indizível a dor de uma mãe ferida na própria carne. Aqueles que crêem na Bíblia Sagrada, por exemplo, podem afirmá-lo no sofrimento, muito bem descrito nos quatro evangelhos, de santa virgem Maria ao ter nas mãos os despojos de seu filho. Aliás, o próprio Jesus Cristo, que nada consta ter acalentado nos braços um filho, devia ter a dimensão da importância de um. Se assim não fosse, não se teria dado ao trabalho de restituir o filho único de uma viúva, como se pode constatar em são Lucas, capítulo sete versículo onze. De ascendência menos nobre, mas tornada irmã da santa ao também ser destituída de seu filho, a mãe sofre na santidade de seu sofrimento. Não imaginando que aquela criança, cuja boca faminta apertara com força contra o seio e que em noites turbulentas de fome e febre pusera para dormir no mais nobre dos berços que pudera dar, havia recostado para descansar a cabeça, pela derradeira vez, no chão imundo de uma calçada berço indigno para qualquer um da humana raça, desesperou-se em um desespero de muda palavra e o que apenas se ouve é um ganido, linguagem bruta da alma, ainda sem tradução. Descontrolada diante do cadáver é arrastada para longe de seu filho, enquanto a multidão, que já estava formada há algum tempo, reocupa o pequeno lugar que se lhe havia tirado.


Vinte minutos após a retirada dramática da mãe chegam uma ambulância, que dadas as circunstâncias não possui a menor utilidade, e uma equipe de televisão. Depois chega um carro da polícia técnica e por fim duas viaturas a primeira é ocupada pelo delegado de plantão que, assim como o repórter que tumultua a cena do crime com as suas perguntas tendenciosas, investiga e indaga alguns moradores. Já na segunda viatura, para a surpresa dos que não crêem na eficácia da polícia, está o jovem que assassinou o outro, com o rosto encostado à janela da porta traseira da viatura. Não se sabe ao certo as circunstâncias de sua prisão, mas imagina-se que não se tenha afastado muito do local do crime. Foi pego já sem a bicicleta e a arma com que cometeu o homicídio. Ao se ver em desvantagem numérica e bélica, apenas rendeu-se sem oferecer resistência maior do que aquela de quem se vê repentinamente privado de liberdade. Pode-se ver, por trás das luzes das sirenes e câmeras de tevê, seu olhar fitando o vazio o seu rosto se contorcendo de tempos em tempos ao divisar o local onde, por trás das pessoas, deve estar o corpo do jovem que matou. Não há remorso em seu semblante, mas percebe-se nele a absoluta falta de esperança em relação a algum futuro. Olhando-o mais de perto, sem a profusão de luzes, nota-se  em seu rosto liso uma expressão de criança assustada que não sabe direito o que fez. Quarenta e cinco minutos depois, o corpo do rapaz é retirado do relento pelo rabecão, após três horas decorridas do assassinato. Em seguida sai a ambulância que não chegou a ser usada. Depois sai o carro da perícia técnica, acompanhado de perto pelas duas viaturas que transportam o delegado e o prisioneiro. Também se retira a multidão que, afinal de contas, não tem mais nada para ver. No local onde permaneceu o corpo do rapaz havia apenas uma grande mancha de sangue que, com empenho dos vizinhos munidos de esfregões e baldes d'água, não demorou vinte minutos para ser retirada. Era uma da manhã quando o último vizinho, que foi à rua para fumar seu cigarro, entrou em casa para dormir.


No dia seguinte o rapaz que foi assassinado e o rapaz que o assassinou ainda são novidade. Um dos vizinhos comenta que o apelido do falecido era Terry, por causa de um jogo de vídeogame. Pelo que se falou dele, não era flor que se cheirasse. Disseram que era ladrão e ainda por cima já matara outros três. Portanto, ainda segundo o sábio vizinho, teve o fim que mereceu. Se era assassino ou não, não fazia a menor diferença, se não havia encontrado no dia de sua morte mão caridosa que lhe oferecesse um toco de vela, também não encontraria boca que o defendesse de prováveis calúnias. Quanto ao outro o rapaz, cujas circunstâncias denominavam assassino, não se mencionou seu nome, mas alguém disse que sua índole era boa e que não imaginavam os motivos para que cometesse tamanha loucura. Na calçada onde ficara o corpo do assassinado, miraculosamente equilibrados uns sobre os outros, seis sacos de lixo disputavam um apertado espaço.